“Estrada-Parque não é Rodovia”
212 já leramPublicado em 13/11/09 por Jornal Ponte Velha (Visite o site!)

O filósofo Humberto Eco publicou um livro na década de 70 chamado “Apocalípticos e Integrados”. Era sobre arte, mas essa dualidade do título servia para rotular, por um lado, os que negavam absolutamente o sistema vigente, acenando com o fim dos tempos, e por outro os que simplesmente o reproduziam. Neste edição conversamos com um homem que fez a ponte entre os dois extremos nos altos da nossa serra: Lino Matheus de Sá Pereira. Carioca, de formação aristocrata, e muito ligado ao movimento alternativo — hippies, agricultura orgânica, religiões orientais, antroposofia, etc – ele sempre procurou canalizar politicamente essas energias. Lino está no Vale das Flores, Mirantão, desde meados da década de 70. Coordenou encontros de comunidades alternativas — com presença de deputados federais e da grande imprensa —, fundou uma série de entidades protetoras do meio-ambiente, lutou pela APA da Mantiqueira, foi o primeiro presidente da FEDAPAM (Frente de Defesa da APA da Mantiqueira), denunciou as serrarias, foi perseguido por elas, e foi um dos primeiros a defender a idéia de “Estrada-Parque” para Visconde de Mauá. Aos 66 anos, casado com Nívea há cerca de 30, Lino se diz cansado de guerra e quer doar parte de suas terras — com diversas construções, vasta biblioteca, acervo e equipamentos (inclusive um grande telescópio) — para uma Fundação de pesquisas e projetos sociais que vem procurando construir. Ele concedeu esta entrevista a Gustavo Praça e Regina Guerra na sua casa das Flores, em meio a cerca de 100 hectares de mata, em parte dos quais faz agricultura orgânica. Foi uma tarde inteira de conversa gravada. Infelizmente, no jornal só cabe um breve resumo.
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GUSTAVO: Lino, conte um pouco da sua história.
LINO: Eu morei parte da minha infância numa chácara, em Jacarepaguá. Era o tempo do pós guerra e meu pai contratou uma governanta francesa, madame Faustine, que tomava conta da casa e que me ensinou as primeiras noções de conhecimento. Eu só fui pisar numa escola por volta dos 10 anos. Eu gostava mesmo era de ler. Me preparei para o Itamarati, mas não fiz porque veio o golpe militar que desarticulou muita coisa. Eu era lacerdista (sempre fui ativista na política, às vezes com posições equivocadas). Mas começaram a sumir os professores. Aí eu resolvi trabalhar. Eu tinha boa cultura geral e sabia bem francês. E meu pai, que era amigo do Antônio Houaiss me arranjou para eu ser assistente dele na tradução da enciclopédia Larousse. E quem trabalhava junto também eram Geir Campos, Ivan Junqueira, Otto Maria Carapeaux, gente desse nível. Foi trabalho e foi também uma grande escola. Tive esse privilégio.
GUSTAVO: Você disse que foi lacerdista. Esse momento do golpe militar mudou a sua cabeça? Porque a ecologia tem a ver com a esquerda, certo?
LINO: Sim, tem a ver com a esquerda, apesar de que não com a esquerda ideológica partidária, porque essa tinha uns senões, não reconhecia a ecologia como um dado…
GUSTAVO: Mas vamos voltar à sua história pós golpe.
LINO: Eu tive parentes envolvidos na resistência ao golpe. Eu sabia de muita coisa, fiz fotos do casamento de pessoas que estavam escaladas para sequestrar o Elbrick, a noiva era minha prima. Aí o clima político piorou. Eu tinha um primo, também chamado Lino Sá Pereira, que estava preso, minha prima estava sumida, eu conhecia muita gente envolvida. Fui tentar tirar passaporte e tive problemas. Então comprei uma casinha de pescador em Búzios, na Praia dos Ossos. Foi em 1969. Acho que fui o primeiro alternativo a morar em Búzios.
GUSTAVO: Você era “doidão” nessa época?
LINO: Olha, eu tive belas experiências, mas fiz com grande gurus. E não era para tirar um barato, era mais do que isso, era uma coisa de visão cósmica mesmo, na medida do possível.
REGINA: Em 1969 o movimento hippie chegou com muita força, e quando alguém abandonava a luta armada e virava hippie se dizia que tinha desbundado.
LINO: Eu acho que eu circulei numa área entre essas duas coisas. A minha casinha em Búzios era conhecida pela sociedade local como a casa do fumacê (eu tinha muitos amigos artistas), e, ao mesmo tempo, foi uma época em que eu corri certos riscos para mandar dinheiro para pessoas que estavam exiladas. Morei lá dois anos e meio. Fazendo alimentação macrô, pescando. E aí eu fiz uma viagem para o Oriente, tipo mochileiro, mas com a idéia de estudar, de aproveitar culturalmente também. Eu tinha uma rendinha do aluguel de uma casa que eu comprei no Rio quando vendi a de Búzios. E fui com a minha Laika (maquina fotográfica), alguns contatos na área de fotografia. Viajei um ano. Estive na Grécia, peregrinei nos monastérios da região sagrada, e depois me juntei a uma caravana comandada por dois afegãos que iam vender dois ônibus velhos em Cabul. Eles trabalhavam duro na Alemanha, lavando pratos, etc, compravam os Mercedez velhos e viajavam 8.000 quilômetros para vende-los. E ai colocavam os hippies dentro cobrando bem barato só para pagar a gasolina. Só tinha maluco, a começar por dois alemães, “doentinhos varridos”, que já tinham feito aquela viagem duas vezes e também dirigiam os ônibus. Viajamos um mês e meio atravessando o Oriente: Turquia, Irã, Afeganistão, Iraque, Índia, Nepal… Passávamos em cada aldeia… Vocês imaginem o Mirantão do Afeganistão… Vi muita doideira, mas sempre fui um hippie com um interior de diplomata; procurava fazer os links dentro do ônibus, que tinha malucos de 12 nacionalidades. E vocês sabem quem eu encontrei em Katmandu? — lugar do melhor haxixe, puríssimo, com selo real, vendido oficialmente, o anti-crack. Sabem quem eu encontro lá: o Jânio Quadros. De terno, colete, com dona Eloá muito elegante ao lado.
REGINA: Nem parecia maluco…
LINO: Pois é… Ele ia para umas conferências em Pequim. Eu fiz muitas fotos dessa viagem e depois saiu até uma reportagem na Veja quando eu voltei.
GUSTAVO: E como é que você chegou em Mirantão?
LINO: Eu tinha uma renda e pensava em comprar uma fazenda na Bocaina de São Paulo, onde eu tinha alguns amigos. Queria ficar isolado, escrevendo. Mas lá só tinha fazenda gigante. Aqui em Mirantão podia-se comprar propriedades menores. E eu tive alguns sinais, através de amigos, e também a coincidência de a vila de Mirantão ter sido criada em 31 de dezembro de 1943, data do meu nascimento. E aí fiquei sete anos numa casinha que aluguei do seu João Mendes, uma pessoa maravilhosa aqui da terra, antes de comprar a minha propriedade — e nesse tempo conclamei alguns amigos e fundamos a APROBO (Associação dos Protetores da Natureza da Bocaina), que está fazendo 30 anos, mas, infelizmente, só comigo…
REGINA: Foi a partir dessa associação que você começou a denunciar as serrarias aqui do alto?
LINO: Foi. Havia um grupo de pessoas interessadas na preservação da mata: o Hugo Fortini e o Toninho das Flores, principalmente, dois jovens engenheiros que haviam comprado terra aqui; o Ivo, que foi o primeiro a chegar e que era uma pessoa difícil…
GUSTAVO: Ele colocou caixas de som na curral e quando ia ordenhar punha aquele disco do Pink Floyd que tinha umas vacas na capa.
LINO: Pois é… Eu trouxe também outros amigos que compraram terras. E a APROBO foi um instrumento através do qual a gente podia denunciar, convocar a imprensa, etc. E isso logo se chocou com o poder de pessoas aqui de cima que não tinham idéia de como lidar com o assunto de gente querendo proteger árvores. E aí fui me envolvendo cada vez mais nessa luta ecológica, houve um processo com as serrarias, eles me acusaram também do que puderam, até de caçar, sem saber que eu era vegetariano.
Depois veio a idéia dos pólos ecológicos, que eu fiz bastante sozinho, que era o mapeamento dos centros de convergência do movimento alternativo/ecológico em todo o país — hoje eu vejo que tinha a mesma base ideológica das APAs; lógico, o pessoal buscava a natureza. Com o tempo, com a pressão dessas comunidades junto ao Poder Público, foram criados até parques no entorno dessas comunidades, como em Pirinópolis e na Chapada Diamantina. Era curioso o mapeamento porque a maior parte do pessoal ficava na Chapada ou em Lençóis, porque era aquele negócio de paralelo 15: ali se sobreviveria ao final do mundo, ao fim do milênio… Saiu muita matéria em jornal, havia um programa da rádio Gazeta, em São Paulo, “O Mundo Alternativo”, que abria com aquela música do Raul Seixas… Eu estive nuns três programas de televisão para falar dos pólos ecológicos.
Outro movimento importante de que eu participei foram os Encontros de Comunidades, que já existiam com o nome de Encontros da Era de Aquárius. Participamos de alguns encontros, no Sul, em Mato Grosso, onde o Toninho das Flores nos representou, e acabamos realizando um aqui no Mirantão e colocando ele no calendário, no mapa do Movimento Alternativo Ecológico. Vieram representantes de comunidades internacionais fortes, como o “The Farm”, dos Estados Unidos; o “Find Horn”, da Escócia — essa última uma comunidade famosa, muito bem organizada, com coisas maravilhosas. E nesse encontro estiveram o Gabeira, o Feldman, o Márcio Bontempo, o Joaquim Cansado; vieram dois deputados federais: O José Frejat, que era do PDT, grande figura humana; e o Luis Felipe Pena, que era amigo do meu pai e que depois foi do CONAPAM (Conselho Consultivo da APA da Mantiqueira). Esse encontro foi muito importante, foi o IV Encontro de Comunidades Rurais. Foi em 80. Estiveram aqui umas 500 pessoas durante uma semana. O seu João Mendes deu a maior força, o encontro foi numa baixada nas terras dele. Ele fez comigo os banheiros, segurou a onda de um pessoal diferente, o seu João foi fundamental. Veio a imprensa, fizeram reportagens — embora a “Isto É” tenha pisado na bola com um texto meio debochado, falando que o pessoal nem tinha fumado maconha, essas coisas… Foram três páginas… E eu conhecia o jornalista, um cara bem de esquerda, eu tinha falado com ele que era para falar legal, que aquilo era uma movimentação importante… Já a Folha, cujo editor era o Bóris Casoy, que era meu amigo de juventude, deu uma cobertura excelente, séria.
GUSTAVO: Essa mística alternativa de Mauá veio daí?
LINO: Acho que veio muito daí. Podia ter alguma coisa avulsa antes, mas como movimento comunitário alternativo veio daí. Embora as pessoas que pretendiam se estabelecer aqui comunitariamente, com pequenas propriedades, tenham ido embora.
GUSTAVO: O Toninho está na Petrobrás, o Hugo Fortini na FEEMA…
REGINA: E a comunidade que realmente deu certo aqui, já tem vários anos, é a Comuniade do Santo Daime.
LINO: Ela é posterior, é de caráter místico, espiritualista. A nossa aqui era mais politizada, era uma comunidade de propriedades, chegaram a morar umas 50 pessoas. Nós convivemos, nos ajudamos uns aos outros, mas era para formar um pólo, uma coisa que congregasse mais, um denominador comum que sobrevivesse a modas, a etapas. Isso nós não conseguimos. Depois eu comecei a pensar no projeto do CIPAC (Centro Integrado de Pesquisas e Ação Comunitária Rural), que foi a mãe da idéia da Fundação que eu venho tentando fazer.
GUSTAVO: Seria uma Fundação de pesquisas sobre a Mantiqueira?
LINO: Ela faria muita coisa. Projetos sócio-ambientais para os jovens, capacitações, artesanato, traria gente de fora. Nós sonhamos muito com ela, chegamos até a juntar algum dinheiro, mas não fizemos. O que se formou foi uma frente, a FEDAPAM (Frente de Defesa da APA da Mantiqueira), da qual eu fui o primeiro presidente, e que reunia o Edgar Khulman, o André Vieira e a Anne, do Penedo; o Luis Felipe, da Serrinha, ainda bem mocinho; o SOS Mata Atlântica, o Capobianco, a Norma Buhller; a Maria Cristina Vieira, do Instituto Sul Mineiro.
GUSTAVO: O André Vieira e a Anne encabeçaram um projeto para o desenvolvimento integrado da Mantiqueira. Tinha uma verba do Banco Mundial e a idéia era dar outras opções econômicas para as comunidades locais — fruticultura, apicultura, etc — mais integradas com a preservação da natureza. Você sabe por que não foi adiante?
LINO: Olha, eu era presidente da FEDAPAM, nós demos apoio ao projeto, mas houve uma intervenção do governo federal, essas jogadas que tem do Conselho Nacional de Meio Ambiente, que pensa assim: “isso aí é uma coisa institucional demais”, e aí diz: “nos já temos um projeto que vai se sobrepor, então deixa esse dinheirinho do Banco Mundial aqui…”.
Mas, voltando à FEDAPAM, eu sugeri que fizessemos um dossiê, que saiu um pouco depois que eu me asfastei, com o nome de “Relatório Mantiqueira”— que reunia dados do IBAMA, do SOS Mata Atlântica, da Probo… Foi no final da vida da FEDAPAM. Eu escrevi muitos capítulos para serem discutidos depois, dando uma pontuação política, e quando saiu o relatório foram feitas muitas modificações na questão de se dar nome aos bois. Serrarias, entende?.. E quanto à estratégia de lançamento, a idéia era haver um evento político/ambiental em cada estado, com a presença da imprensa e a entrega do relatório às autoridades, e isso também não foi feito. Eu aí me afastei, o Kuhlmann assumiu, e um ano e meio depois a FEDAPAM acabou.
GUSTAVO: Atualmente as serrarias pararam?
LINO: Melhorou da água para o vinho. Derrubam um pinheiro, um eucalípto, mas parou a derrubada maciça da mata.
REGINA: O fim da pecuária leiteira ajudou também na diminuição da derrubada.
LINO: Sim. Mas nunca existiu nenhuma política de nenhum município no sentido de preservação. Bocaina, então, muito menos… É só acessório.
REGINA: Agora, o pessoal do entorno do Lino preserva mesmo, muito em função dele.
LINO: Isso é verdade. Muitos até me confundem com fiscal do IBAMA. Me veem no meu jeep, com esse meu casaco caqui, e vêm me perguntar se pode fazer isso ou aquilo. Eu oriento.
GUSTAVO: Você não vê no turismo uma alernativa econômica boa para substituir a pecuária?
LINO: O turismo cria uma opção, dá emprego para uma rapaziada. Mas precisa ser regulamentado. Aqui, na Grande Mantiqueira, a gravidade é que ele representou o abandono de todas as outras atividades estratégicas. Vai chegar um momento em que ninguém sabe mais nada das atividades rurais, da tradição do pequeno produtor, e vai haver um momento em que vamos precisar disso, isso tem que ser levado em consideração. Quando uma atividade passa de 30, 40% do total da economia numa região é como se você falasse “eu só sei fazer isso”. Aí dá um problema e você já não produz para cozinhar para você, não tem mais qualquer alternativa. O problema é que é o velho “laissez faire”, onde entra o turismo não regulado, a especulação imobiliária, o loteamento a todo custo. Por mais que nós tenhamos lutado na FEDAPAM, por mais que tenha sido criada a APA da Mantiqueira, que é a maior APA do Brasil, por mais que a gente tenha debatido a necessidade de criar uma ampliação da cadeia produtiva — retomando, por exemplo, a farinha do pinhão que era uma tradição indígena —, enfim… colecionamos avanços ideológicos, legislativos, jurídicos, mas eles não se traduziram em políticas públicas. E o pior é que hoje em dia dois anos equivalem a 50 anos; entram 40 carros aqui, arrebentou tudo… Então, a Fundação seria uma nova tentativa. Poderíamos aproveitar o interesse de alguns grupos estrangeiros organizados ligados a meio-ambiente, a pequenas iniciativas, ao plantio de alimentação orgânica. O Brasil naturalmente os fascina, eles poderiam comprar terras. A Fundação poderia coordenar isso, com cursos, apoio. Haveria trabalho para a população local já desvinculado só do turismo. Hoje em dia existem leis que obrigam a merenda escola ser produzida nos municípios. Seria um estímulo fantástico.
REGINA: 30% da merenda escolar nas áreas rurais têm que ser produzidos no local.
GUSTAVO: A produção local vai ser importante também devido às mudanças climáticas que vêm por aí.
LINO: Pois é, já estão muito adiantados certos processos que não estão sendo divulgados. Seria muito ingênuo achar que alguém ia chegar e dizer: não comprem mais carros. Fica aquela coisa do Beltord Brecht: ninguém fala nada e um dia não tem mais jeito. Então os caras da mídia, o Joelmir Betting e outros, são um robôt ali; o pessoal se adapta e começa a fazer o discurso de bonecos, de clones. Argumenta-se que a desaceleração da indústria automobilística traria muito desemprego aos metalúrgicos. Não teria problema: nos Estados Unidos, na guerra, em seis meses deixaram de fazer máquinas singer para fazer metralhadoras, peças para armas. Então é o seguinte: tem um mercado de mais de um bilhão de pequenos e médios painéis solares — 500 milhões já é uma demanda — e vários outros equipamentos para energias alternativas. Simplesmente precisa ter força política, vontade política; precisa ter estadistas, precisa ter conselhos iluminados que digam: olha, organizem-se porque vocês vão afundar, vão naufragar. No entanto, ao contrário, nem há mais Estado, o Estado não gere mais a economia, a economia é um poder anônimo, difuso. A decisão sobre produzir alimento orgânico, por exemplo, no mundo inteiro, não está mais na nossa mão, é da Monsanto.
GUSTAVO: Mas há um dado de que 70% da comida da nossa mesa, do feijão com arroz e mandioca e tal, vem do pequeno agricultor familiar. E o Lula está dando força à reforma agrária.
LINO: Sim, mas não neutraliza o poder da Monsanto. Eu cito ela porque é o símbolo mesmo: “privatizando o mundo”, “roubando o futuro”. O pequeno agricultor vai sendo cada vez mais absorvido, não tem como arranjar semente. A Argentina está tomada, não tem mais nada que não seja transgênico.
GUSTAVO: O transgênico é mau em essência?
LINO: Eu não me alimentaria com transgênico. É uma precaução natural; todo o meu instinto se recusa a aceitar uma interferência genética tão grande numa coisa como o milho, por exemplo, que tem milhões de anos. Primeira coisa: tinha mais de 200 tipos de milho — desde os Incas, os índios; com os híbridos passou a ter uns seis. Quer dizer: mudou o clima, acabou… É como o mar, não é? Quantas formas, quanta coisa. Para que? Para sair dali uma que escape. A natureza é quase pirada no nível de diversificar e expirar; a vida cria a vida; a vida chama a vida a todo momento. E nós estamos justamente fazendo um reducionismo disso.
GUSTAVO: E justificamos dizendo que essa vai ser a única forma de alimentar as massas.
LINO: É de uma burrice, é criminoso, e vamos pagar por isso — os caras vão pagar junto. Eu não queria ver isso. A técnica humana atropelou violentamente o tempo biológico. Antigamente, passava 100 anos e os caras inventavam o tear… Era lento. Atualmente é muito acelerado, o tempo histórico atropela o tempo biológico, num instante aniquila-se processos que a natureza levou bilhões de anos para construir. Nós alteramos todas as relações de equilíbrio que atrasariam o processo natural de entropia, ou seja, de dissipação natural das coisas. O tempo tecnológico então acelerou muito isso. E as teorias econômicas ignoram que nós estamos dentro de uma nave com limites. E não dá mais para freiar, a força da inércia desse processo é terrível, mesmo que a gente parasse tudo agora. Estão se aproximando crises, grandes alterações geopolíticas mundiais — que talvez tenham até um certo determinismo, porque, afinal, o que somos nós se não um pequeno acidente, uma experimentação cósmica lá do criador, do inventor incessante, seja o que for…
GUSTAVO: A gente é a ponta da criação, que tem o dom da consciência e se desespera quando vê que não tem controle, que está num planeta aí solto, doido…
LINO: É bom a gente meditar um pouco sobre esses aspectos filosoficos. Com o desespero, nós só encontramos um caminho: fuga para adiante. Nós somos os fugitivos para adiante. E aí acabou, atropela mais ainda. As religiões orientais falam que a gente tem que aceitar que é um ser limitado, condenado, indefeso, aceitar a morte. Não ficar se iludindo.
GUSTAVO: Com o poder, por exemplo.
LINO: Que é uma forma de disfarçar a impotência. E aí vem nação, seita, falsos deuses, o poder político, o poder de ter dinheiro… Não resolve a angústia existencial, que o Kierkggard diagnosticou em 1840, e que a gente quer resolver com a fuga para adiante.
GUSTAVO: O asfaltamento da estrada de Mauá faz parte da fuga para adiante?
LINO: Vamos acelerar, vamos aumentar quantidades, vamos experimentar loucamente possibilidades… Por que não ficar com os seus três chalés e tentar ser amigo dos seus hóspedes? Mas não. Deu certo, vamos fazer 10, porque no carnaval enche 10. Aí não tem mais limite. Você vê: uma aplicação prática do disparate da entropia. Aceleram-se todas as funções, todos os fenômenos e processos, mesmo na nossa vida cotidiana. E vocês vejam: a Mantiqueira, que é ainda um grande país, que eu chamo “Pais de Paisagens”, encalhado no sudeste, entre Rio, São Paulo e Belo Horizonte. Será que não despertaram para isso? Nascedouro das águas, mil riachos, rios, ribeirões, que vão formar bacias para vários lados, o Paraíba, o Prata… Nós ainda temos uma possibilidade de evitar que vire o Anhangabaú.
GUSTAVO: Mas você não vê a possibilidade de a estrada-parque trazer para cá um movimento turístico que consiga preservar a natureza?
LINO: Não é impossível, mas seria necessário um momento de esclarecimento, de cuidado… E a gente não vê isso na prática.
REGINA: Se o poder público não consegue nem tirar os cavalos das estradas… Outro dia morreu um menino aqui de moto porque bateu de noite num cavalo. Se não consegue tirar cavalo vai organizar o quê?
LINO: Estamos ainda muito despreparados. É questão educacional, cultural, psicológica. Como a estrada é amanhã, a tendência é simplesmente abrir a porta para o mesmo fenômeno que está se repetindo por aí. Búzios ficou assim, Miguel Pereira, Saquarema…
REGINA: Lumiar.
LINO: Nós aqui estamos até lutando mais do que nesses lugares. E é importante que haja a discussão para que fique clara a noção do perigo. E eu coloco um outro dado um tanto fatalista. Mas é o seguinte: mais uma geração, 2030, vamos ter os efeitos dos derretimento das calotas, da Groenlândia, que é gravíssimo, dos Andes, das camadas congeladas da Sibéria… Os Alpes suiços têm já quatro estações com neve artificial… Então vamos pensar na Mantiqueira como uma embarcação com a qual a gente deve ter muito cuidado e critério. Já expulsamos daqui os índios, estamos expulsando culturalmente a tradição da roça, e agora vamos expulsar a nos mesmos, expulsando as nossas expectativas. Não podíamos mais estar apostando fichas no estritamente comercialista e mercantil. A estrada é como a porta do templo, tem que vigiar.
GUSTAVO: Você é contra a estra-parque ser feita neste momento?
LINO: Eu mesmo dei idéia de estrada-parque em 2003, quando se falava em asfaltar. Mas estrada-parque é estrada-parque, ela não é uma rodovia. Mesmo que tenham 10 mil técnicos dizendo que o EIA-Rima está pronto e que vão fazer a estrada com largura de seis a oito metros, isso não é absolutamente uma estrada-parque, não é absolutamente uma estrada ecológica. A estrada ecológica, ela — na medida do possível mas de forma quase absoluta — ela aproveita o leito carroçável que existe e não faz intervenções pesadas. Na nossa estrada nós temos mais de um quilômetro, em áreas mais estreitas, de talude rochoso, de até 12 metros. Você me diz como é que você tira mais três metros nisso para alargar a estrada? É o Cantagalo… E as dinamites acabam com a flora… E quanto ao piso não deveria ser de asfalto: primeiro porque joga um peso muito grande, precisa de um preparo muito denso, e depois porque impermeabiliza demais. O ideal seria paralelepípedo, que daria emprego e tiraria as empreteiras e a politicagem da jogada. Demora? Mas se discute isso há 20 anos, já estaria pronto há muito tempo. Ou então bloquete muito bem feito, macadamizado. Eu quero colocar um outro dado: entre Quatis, Barra Mansa, Volta Redonda, Porto Real, Itatiaia, Resende e começo ali de São Paulo, com a nova estrada (se ela for uma coisa escancarada), nós vamos estar a no máximo uma hora e quinze minutos desse perímetro. Essa densidade já urbanizada soma um milhão de habitantes e já tem uma frota de 200 mil automóveis. Aqui vai ser a Nova Leblon. Pensa em 5 mil carros: a quatro metros cada um dá 20 quilômetros lineares; mais uma distancinha entre cada um, de seis, dez metros, dá 60 quilômetros. É o que você tem de estrada, mais ou menos, se somar do início, em Penedo, até a ponte dos cachorros.
GUSTAVO: Mas mesmo que você mantenha a estrada estreita, calçando bem ela as pessoas vão vir.
LINO: Mas você já minimiza um impacto ambiental na área da estrada.
REGINA: E, quanto ao fluxo, o projeto de uma estrada-parque prevê controle.
LINO: E esse é o ponto de que muitos descrêem. Outro dia eu estava falando da minha preocupação em baixarem 10 mil carros aqui, e um rapaz novo me disse assim: “Mas por que você acha que isso é errado?”. Ora, você está lidando com coisa material, com cálculo, estatística.Tem que ter portal, tem que ter fiscalização e uma estrada-parque de fato. E nem é só cobrar a entrada. A partir de um determinado número de veículos não pode entrar mais. E nisso que o pessoal está descrente. Há o medo de que mesmo com portal ninguém irá tomar conta. E como há uma pressão comercial um tanto cega, a gente fica muito ameaçado realmente. Tem nego comprando muita terra aí, podem vir empreendimentos imobiliários a torto e a direito. Isso aqui pode ficar igual à APA de Petrópolis, que foi se encolhendo, se encolhendo… A questão da água vai ser grave…
Entrevistas
Jornal Ponte Velha










Estamos em processo de favelização nas vilas de mauá, maringá e maromba, pousadas e casas pipocando para todos os lados, fossas vazando nos corregos o rio ja não é o mesmo há muitos anos ja não se pode tomar banho no rio de maromba pra baixo e nada é feito. Se deixar tudo como esta vai ser dificil continuar morando num lugar onde a cada dia surgem casas e pousadas por todos os lados sem nenhuma fiscalização! Por que a sede da APA da Mantiqueira não tem sede em visconde de mauá? Cade o IBAMA que nada faz? Olha não é essa estrada esburada que vai empedir a degradação ambiental na região de visconde de mauá. Presisamos da estrada para que sejamos lembrados, que a fiscalizão e quem sabe não comesse a demilir tudo que estiver iregular! ai sim vai doer no bolso e vai parar as obras iregulares.
Estamos em processo de favelização nas vilas de mauá, maringá e maromba, pousadas e casas pipocando para todos os lados, fossas vazando nos corregos o rio ja não é o mesmo há muitos anos ja não se pode tomar banho no rio de maromba pra baixo e nada é feito. Se deixar tudo como esta vai ser dificil continuar morando num lugar onde a cada dia surgem casas e pousadas por todos os lados sem nenhuma fiscalização! Por que a sede da APA da Mantiqueira não tem sede em visconde de mauá? Cade o IBAMA que nada faz? Olha não é essa estrada esburada que vai empedir a degradação ambiental na região de visconde de mauá. Precisamos da estrada para que sejamos lembrados, Que venha a fiscalizão e quem sabe não comesse a demolir tudo que estiver iregular, ai sim vai doer no bolso e vai parar as obras iregulares.