Consultório sentimental
273 já leramPublicado em 28/02/10 por Jornal Ponte Velha (Visite o site!)

Minha cara Zora Yonara.
Não entendo qual o problema da minha vida. Dinheiro não me falta. Apoiei o prefeito do meu município e estou aí prestando um serviço terceirizado com dois caminhõezinhos que eu tenho. Descontado o salário de uma meia dúzia que trabalha pra mim eu embolso no fim do mês uns 20 paus. Tem ainda um esquentamento de dinheiro que eu faço na minha loja; fora que participo de um grupo que formou uma nova empresa e ganhou a concorrência do serviço de água daqui, que foi terceirizado (tem outra empresa brigando na justiça, mas já demos 50 paus para um juiz de segunda instância). Esse negócio de administrar essas concessionárias é uma mina, porque o pessoal tem que pagar a conta todo mês, é uma dinheirama. E, minha cara Zora, te digo com sinceridade que não tenho problemas de sentir culpa. Penso que nesse nosso mundo quem corre atrás é que tem direito. Eu nasci em família pobre, da roça. Trabalhei muito pra conseguir chegar no grupo que comanda as coisas. É o tal negócio: se não fosse eu, era outro. Quanto à minha vida pessoal, tudo vai muito bem. Sou feliz com minha esposa, vamos a restaurantes com chefes que sabem harmonizar comida com vinho, e tenho um casal de filhos lindos, que estudam inglês, informática e já foram à Disney. No entanto, Zora, sou atormentado por uma sensação de insatisfação. Por que? O que devo de fazer?
Ednaldo Pena, do interior do Paraná.
Meu caro Ednaldo.
Vou te mandar a real: você sabe onde você mora? Sabe onde é a tua casa? É o Planeta Terra. Você sabe o que você é? Você é Deus, meu irmão! Você faz parte da espécie humana. Você é a natureza que pensa. Se você conceber Deus como o processo da misteriosa força criadora, você é a ponta de lança do processo. A natureza caminhou bilhões de anos organicamente, evoluindo cada detalhe, cada encadeamento, cada entrelaçamento, e agora caiu na tua mão. (Não que ela dependa de você — você pode se exterminar a si e aos seus, que ela vai continuar a vida, mas pode ser duro chegar de novo a um resultado como você (tenho que te louvar, é mole…). Então é isso, presta atenção: você tem algumas formas de satisfação. A que vem pelo prazer dos sentidos, o dinheiro te ajuda a conseguir, embora também se possa conseguir sem tanto dinheiro. A realização da tua vocação como indivíduo é mais difícil, mas você também conseguiu, eu acho, com o teu lance empreendedor. Mas, Ednaldo, tem a questão da tua vocação como Deus, a tua vocação como espécie humana. É aí que o bicho pega, meu querido; é aí que o buraco do empreendimento é mais embaixo. E essa vocação maior você carrega no DNA, não tem jeito; a família de que você é chefe é muito maior, você não tem como se apartar dela, ela vai esta sempre presente no subconsciente, no inconsciente, sei lá, cobrando a tua responsabilidade. Você pergunta o que deve fazer. Eu te digo: não procure igreja, mas pense no Cristo e no que ele dizia e fazia. Ele dizia que era o filho de Deus. Ou seja, nós somos os herdeiros dessa herança, dessa jóia azul que flutua no espaço, desse capital de bilhões de inimagináveis anos. Então, dois caminhõezinhos num esquema com a prefeitura é muito pouco.
Um abraço, Zora.
PS: Claudionor Rosa me contou outro dia que quando Nara Leão cantou em Resende, no shopping, no começo dos anos 80, muita gente chegou cedo para sentar na primeira fila por causa da fama das pernas e dos joelhos bonitos da musa do samba. Só que ela se apresentou de calça comprida. Muito bem: no dia seguinte, num bar, Claudionor presenciou uma discussão sobre a questão. Uns decepcionados, outros dizendo que era um direito dela se apresentar com a roupa que achasse melhor. Até que o Chico Fortes bateu na mesa e deu o veredito: “ Não adianta nenhuma desculpa! Foi uma desconsideração
com o povo de Resende!”
Gustavo Praça
Jornal Ponte Velha











