Lições do Verde

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Publicado em 02/02/10 por Jornal Ponte Velha (Visite o site!)

É difícil explicar certas coisas bizarras como o “direito dos animais”. Depois de meio século de animais falantes no cinema, representando emoções humanas, não há coração adolescente que não derrame lágrimas ao ouvir o “choro” de golfinhos e baleias esquartejados, o “ar pesaroso” da mamãe aliá, olhando para trás enquanto o mais selvagem dos predadores, o homem, retira o marfim de seu filhinho etc.
Por trás, parece estar a tese de valorizar a “vida” mais do que a pessoa humana, e considerar o homem um episódio infeliz da evolução. Poucos argumentos são capazes de fazer a sociedade sentimental ajoelhar-se diante do grande irmão como o pranto estereofônico de “Mamãe Terra”. Antes que Freud explique, observe-se que a simpática mobilização para salvar o planeta requenta o surrado tema dos bons republicanos contra os cavaleiros malignos do capital. Chega como uma religião globalizada, espécie de neo-paganismo, com direito a um mix místico onde cada um é o papa de sua ilha de edição, e queima a quem quer.
Será um acaso que os protagonistas do fundamentalismo verde são socialistas? E não só da “esquerda”. Consta que Hitler era vegetariano, contra os cigarros, o álcool e tudo o mais que atentasse contra a pureza legal do ser humano. Virtuoso, não? Na abolição da vida privada, os corpos pertencem ao estado. Sim, a pureza racial é apenas (?!) um modo de se aplicar a tese da pureza legal, a orgulhosa pretensão de ser gestor de tudo.
Dizem que o problema é a superpopulação, com o aval de Sua Santidade, a Ciência, que levou a ética a virar higiene social, e esta a se tornar esterilização mental. A castração física é só um epifenômeno que controla os nascimentos após controlar os pensamentos pela crença ingênua no poder das leis e das escolas.
Mas esta é apenas uma das formas de abdicar da liberdade e abrir mão da participação efetiva nas parcelas de autoridade a que as leis naturais e as tradições dão acesso. Por isso, um dos ganhos notáveis do debate ambiental é que as soluções passam por uma reorganização da sociedade segundo valores de cuidado e simplicidade. Grandes soluções tecnológicas produzem mais lixo do que êxitos.
A organização tradicional da sociedade, fundada nas famílias, nas vizinhanças, nas corporações, precisava de menos leis e menos tecnologia porque apostava nessa forma de humildade. A vida real da distribuição do poder acontecia nos espaços vazios, deixados entre as leis, onde o bom senso e a sabedoria popular resolviam a maior parte das questões.Preventivamente.
A lição das arbitragens, das câmaras e concelhos, das santas casas e das paróquias dava conta da sociedade real. A sociedade possível ficava para os canonistas e burocratas, que eram em menor número do que as pessoas normais. Hoje, os tecnocratas mandam ver e fazem chover. Menos em nossas hortas.

Marcos Cotrim
Jornal Ponte Velha

Arquivado em: Marcos Cotrim

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