Noel de Carvalho: Resende na Alma
672 já leramPublicado em 24/01/10 por Jornal Ponte Velha (Visite o site!)

O dia 11 de janeiro foi muito importante para Noel de Carvalho, neto. Ele tomou posse na Academia de História de Resende na cadeira que pertenceu a seu tio, o professor, poeta e jornalista Frederico de Carvalho, e cujo patrono é seu avô, o também poeta Noel de Carvalho. Além disso, no dia 11 o seu pai, Augusto de Carvalho, faria 100 anos. Tudo isso remete à forte ligação dessa família com a história e a política de Resende. Como bem observou Joel Pereira, Noel foi o prefeito que por mais tempo dirigiu Resende (10 anos) e o único que é filho e pai de prefeitos. A marca de Noel é sua capacidade de trabalho, e ele, inegavelmente, teve participação fundamental na preparação da cidade para o crescimento. Sesi, Senai, Corpo de Bombeiros, Hospital de Emergência, Uerj, APA da Serrinha, e tantas coisas mais, têm a energia do Noel em sua constituição. Ele foi ainda deputado federal constituinte e quatro vezes deputado estadual, além de Secretário Estadual de Habitação, de Educação e de Agricultura. Em outubro concorrerá à reeleição. Como disse alguém no calçadão, “não precisa nem pendurar cartaz”. Noel conversou com o Ponte Velha na fazenda Três Pinheiros. Sua irmã, Martha, Zé Leon, Joel Pereira e Gustavo Praça participaram.
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GUSTAVO: Estão havendo reuniões para discutir a transposição das águas do Paraíba para abastecer a macro-São Paulo, incluindo Campinas, Baixada Santista, etc. A gente sabe que metade da água do Paraíba abastece o Rio de Janeiro e…
NOEL: Metade não! Mais de três quartos! Olha, São Paulo fala nisso desde quando eu era criança e papai era prefeito, ou vice-prefeito, não me lembro com certeza. Essa notícia correu e o papai mergulhou nessa briga. E eu acompanhava muito ele e assisti a muitas discussões. A idéia de São Paulo era pegar os dois rios que formam o Paraíba, ali depois de Jacareí, fazer um túnel na Serra do Mar e fazer o Paraíba despencar na altura de Caraguatatuba, Ubatuba, por aí. Eles produziriam energia elétrica também. O papai brigou muito, muito, e saiu vitorioso. Aí não se fez isso. Isso foi em 1958, mais ou menos… Agora, se São Paulo está falando outra vez nisso é um absurdo. Se o Rio de Janeiro já gasta 3/4 da água São Paulo vai pegar o quê? E nos aqui, e Volta Redonda, Barra Mansa, etc?
GUSTAVO: E São Paulo é forte…
NOEL: Gustavo, você sabe, desde criança, onde a gente mora: Fazenda Três Pinheiros, pertinho da divisa com São Paulo, e por conta disso o nosso hotel sempre foi frequentado por paulistas e cariocas. Então, eu assisti a muitas discussões entre paulistas e cariocas, a partidas de volei, de futebol, entre paulistas e cariocas, etc… Eu lembro, especialmente, do papai discutindo com o dono da Babylândia, uma fábrica de móveis laqueados: a certa altura o sujeito disse: “Seu Augusto, São Paulo é outro país.” E o papai respondeu na hora: “Outro país e inimigo!” (risos gerais). Mas, a propósito dessa questão do Paraíba, eu quero contar uma história muito significativa: eu era assessor — assessor… eu era boy do Jefferson Bruno quando ele era Secretário de Fazenda do antigo estado do Rio de Janeiro. Eu tinha 18 anos e o Jefferson começou a me levar a Brasília para as reuniões do Conselho Federal de Política Fazendária (CONFAZ), e eu vi coisas assim: colocava-se um tema em votação, uma questão que, por exemplo, seria prejudicial para Sergipe; aí o Secretário de Sergipe votava contra, aí um assessor de terceiro escalão do Secretário de São Paulo ia lá e cochichava um instante no ouvido do Secretário de Sergipe, que pedia a palavra e dizia que queria mudar o voto… Tal o poderio de São Paulo…
GUSTAVO: E o Paraíba nasce em São Paulo.
NOEL: Mas veja bem: o Paraíba é um rio federal, porque ele passa por três estados. Então ele obedece a leis federais. Pois bem: e a lei federal adotada no Brasil, por acaso, é uma lei que foi sugerida por um camarada chamado Noel de Carvalho Neto, prefeito de Resende. Por conta de uma série de brigas que eu tive em defesa do rio Paraíba no meu primeiro mandato de prefeito, eu fui convidado a visitar a Inglaterra e conhecer a sua política fluvial, que recuperou o Tamisa, etc e tal. Conheci também as experiências da Alemanha e da França quanto a gerenciamento das suas bacias. E não tive dúvida de que a melhor experiência era a francesa. E em 79 eu fiz uma palestra no Clube de Engenharia propondo a solução francesa para o Brasil: a autoridade sobre a bacia é um Comitê de Estudos Integrados que é composto pelas autoridades pré-existentes — os prefeitos e os governadores dos municípios e estados cortados pelo rio indicam representantes.Cria-se paralelamente uma agência, e essa agência executa as políticas determinadas pelo Comitê.
GUSTAVO: Foi no informativo do próprio comitê, o CEIVAP, que eu vi essa matéria, de duas ou três páginas.
NOEL: Favorável?
GUSTAVO: Nem a favor nem contra, mas tratando como um assunto plausível, debatido em seminário por várias ONGs, órgãos governamentais, etc.
NOEL: Mas é um absurdo! É porque São Paulo deve estar controlando o CEIVAP. Eu vou me inteirar dessa história.
JOEL: Inclusive, Noel, teve um samba da sua campanha, muito bonito, feito por um rapaz lá do Paraíso, se eu não me engano, que diz lá numa parte assim: “você fez um governo competente / E nele foi o povo quem mandou / Defendeu o meio ambiente / O Rio Paraíba foi o que mais te preocupou”.
NOEL: É lindo, eu vou ver se uso ele de novo… (os dois cantarolam o samba)
GUSTAVO: Existe uma determinação do governo federal de que até o final de 2010 todos os municípios terão que criar agências reguladoras de saneamento. Não é mais um inchamento do Estado?
NOEL: Eu concordo inteiramente. Mais instituição burocrática, com mais diretores, mais motoristas… Poderia se delegar isso a uma Secretaria já existente.
GUSTAVO: Noel, vamos pensar a região e o planeta. Você acredita que através da tecnologia a gente pode sair dessa crise ambiental?
NOEL: Eu acho que a tecnologia é um instrumento, é uma ferramenta, mas ela em si não é a saída; só pela tecnologia não tem saída. O que eu acho é que falta, em primeiro lugar, informação. É impressionante como uma reunião mundial para tratar da questão do clima, em Copenhagen, terminou em nada… também por conta do conflito de interesses, não é? Mas, voltando à tecnologia, eu não tenho nenhuma certeza, por exemplo, sobre a questão das sementes geneticamente modificadas. Talvez seja uma solução, produzir mais em menos área, usando menos agrotóxico… Existem muitas possibilidades… Eu não tenho certeza sobre nada — até dizem que quem não está na dúvida é porque está mal informado —, mas eu tenho algumas convicções, e uma delas é que as pessoas não estão se preocupando como deviam com essa questão, com a busca de alternativas. Isso passa pela educação, pela escola.
GUSTAVO: A idéia de que simplesmente crescer é a solução de tudo se avaliza com a tecnologia. Toca o pau no burro porque a criatividade científica sempre vai resolver, com sementes transgênicas, com energias menos poluentes, com intervenções cirúrgicas no trânsito das grandes cidades. Como você vê isso?
NOEL: O que é preciso é que se adote uma nova mentalidade. Essa mentalidade de crescer a qualquer preço, eu acho que não tem a menor saída por aí — mesmo com novas tecnologias que possam compensar algum tipo de comprometimento. Porque você tem uma tecnologia que te permite produzir uma energia mais limpa, etc, num limite x, e aí você cresce num limite 10x, como é que vai resolver?… Agora, por outro lado também — e aí é o x da questão — o argumento de quem defende o crescimento de qualquer jeito, toca o pau no burro e tal, é de que se você não cresce você não gera empregos, e não gerando empregos estarão ai bilhões de desempregados, na miséria, e nada é mais poluente do que a miséria.
GUSTAVO: Você não acha que este argumento do emprego é um pensamento muito voltado para o desenvolvimento urbano, das grandes cidades? Ou mesmo de um campo com a propriedade muito concentrada? Se a gente pensa num desenvolvimento rural com propriedades menores já não há tanto a questão do “emprego”, mas sim da “ocupação”, da “atividade”. O sujeito plantando com a sua mão está usando a energia do próprio corpo. Essa idéia simples é sempre vista como um retrocesso… e talvez no momento que estamos vivendo isso não seja mais um retrocesso…
NOEL: Eu concordo inteiramente contigo. Não só não é retrocesso, como esses avanços tecnológicos devem ser usados como argumento para isso, para que não haja necessidade de se continuar fazendo o que se faz. As novas tecnologias devem servir de argumento para a gente encontrar novos caminhos.
GUSTAVO: Pensando na nossa região: nós temos uma tradição rural que vai num processo crescente de decadência. Você vê possibilidade do nosso campo voltar a florescer? Não com gado, mas com agricultura orgânica, por exemplo?
NOEL: Eu não tenho certeza disso que vou dizer, mas tenho lido em vários jornais que o maior poluente da atmosfera, o maior emissor de gazes que agravam o efeito estufa, é a criação de gado. E não só pela queimada e derrubada, mas principalmente por causa do pum dos animais — tem estudos científicos e o diabo… Agora, por outro lado, numa madrugada dessas eu vi um cientista dando uma entrevista na TV dizendo que, ao contrário da crítica que se faz ao CO2, em todo lugar onde o nível de CO2 é maior as árvores crescem mais, tudo cresce mais… Eu, como não sou cientista…
GUSTAVO: Tem argumento para tudo que é lado… A técnica se presta a ser usada para argumentar para tudo o que é lado… É só ter advogados hábeis…
NOEL: Eu ouvi outro dia na CBN uma coisa que me fez muito bem: que Resende é o município campeão em termos do número de propriedades particulares que já formalizaram as suas reservas de florestas nativas, as suas áreas de proteção. Aqui na fazenda eu não sei se nós já formalizamos, mas existem áreas aqui que desde o tempo do papai a gente não tira nem um cabo de martelo. A gente pode conviver bem com essas áreas preservadas, talvez pudéssemos agregar também uma produção intensiva, não sei…
ZÉ LEON: Em Piraí ele tem uma coisa que chamam “arranjo produtivo local”. Como é área de pequenas propriedades eles fizeram uma escolha: criar tilápias. E hoje eles têm excelência nisso. Eu acho importante essa escolha, esse foco, para não ficar só na coisa de plantar para comer.
NOEL: Só pra comer, não… Para vender, para sobreviver às custas disso, etc e tal… Pode ter a agricultura familiar e ao mesmo tempo um foco geral, como o da tilápia em Piraí. Pode ser flores, por exemplo. O que Holambra exporta para o mundo inteiro, em leilões virtuais, é um negócio impressionante. Outra coisa: artesanato. Você visitando Bichinhos, Prado, Tiradentes, o entorno de São João Del Rey, o que você encontra de artesãos produzindo coisas maravilhosas que exportam também para o mundo inteiro…É outra saída. Eu fico imaginando, por exemplo, as favelas do Rio de Janeiro: se elas vendessem artesanato, com a clientela enorme que tem no entorno… Se em vez de vender cocaína a favela vendesse artesanato… Talvez conseguissem o mesmo líquido de renda, não sei…, com muito menos risco.
MARTA: Esse trabalho familiar tem uma grandeza…Eu lembro, quando eu era menina, do pessoal da roça fazendo seu fubá, matando suas galinhas pra comer; das mulheres lavando roupa, conversando e rindo; do pessoal cantando calango. Uma alegria que foi se perdendo… Eu sei que o progresso não tem volta… mas crescer a qualquer custo é um negócio complicado…
GUSTAVO: Por um lado estamos vendo que tem que diminuir o aquecimento — o Lula vai lá em Copenhagen falar isso —, e, por outro, estamos apostando no pré-sal…
NOEL: Há uns 10 dias atrás eu estive conversando com o presidente da CEG. Ele me disse que o que é produzido de gás no Rio de Janeiro, metade eles vendem para a indústria, para postos de gasolina, e a outra metade eles queimam. Não só é um desperdício — porque poderia produzir energia mais limpa do que o petróleo — como também você está queimando oxigênio na atmosfera. Metade da produção, rapaz! Oito milhões de metros cúbicos!
GUSTAVO: E por que?
NOEL: Porque ainda não tem logística. Não tem ainda a capacidade de levar esse gás por dutos até os locais que seriam potenciais consumidores; falta capacidade de “adução”, essa é a palavra. Então, a produção fica sobrando.
JOEL: O Brizola falava no “socialismo moreno”, e eu e o Luis Geraldo Wathely inventamos o “capitalismo caboclo”, que também visava a mitigar esses absurdos do capitalismo selvagem. Você não acha que a gente dá muito incentivo às grandes corporações e pouco ao pequeno empreendedor?
NOEL: Eu acho, mas em alguns casos já acontece isso que você está propondo. O artesanato, por exemplo, não paga imposto nenhum, é zero. Mas é possível outros tipos de incentivo. Por exemplo: tem uma empresa do Rio que tem loja em Resende — a Caçula — que está com um projeto muito interessante que eu tenho acompanhado. Eles montaram uma escola de formação de artesãos, de pintores, etc, num prédio que era do Betinho, do Natal sem Fome. Então, com eles, eu já levei isso para três ou quatro comunidades muito pobres, e tem umas que já estão produzindo resultados. Eles levam professores numa reunião na Associação de Moradores, os professores detectam quem tem talento para que área, levam para frequentar um curso, pagam a passagem, e depois essas pessoas começam a produzir em casa, a fazer venda em casa, e nos domingos fazem uma feira. Então, a mulher está fazendo artesanato ao mesmo tempo em que está vendo se o arroz está cozinhando, em que está cuidando do filho, sem precisar tomar ônibus, poluir, etc. Se um particular faz isso… o governo pode fazer mais.
GUSTAVO: Sobre as favelas: você não acha que a liberação da droga, do seu comércio, acabaria com essa matança de crianças arrebanhadas para as quadrilhas? E o Estado poderia tributar. O que você pensa disso?
ZÉ LEON: Já se sabe que o custo do Estado para tratar dependentes seria muito menor do que o custo para combater o tráfico… O alcool traz muito mais prejuízo do que a maconha…
MARTA: O sujeito não pode comprar maconha mas pode comprar vodka ou cachaça no botequim…
GUSTAVO: E é um contrasenso essa coisa de permitir o uso e criminalizar a venda…
NOEL: Eu confesso que esse assunto é complexo demais para mim… Eu fico prestando atenção…
GUSTAVO: Você foi Secretário de Habitação, viu de perto o universo das favelas..
NOEL: Ontem mesmo eu estive no Pavão, Pavãozinho e Cantagalo, que lá está se instalando a polícia pacificadora. Mas é como eu disse: acho que é preciso encarar esse problema de frente, mas acho um problema complexo demais e não tenho uma posição definida. Na última campanha, o que as pessoas mais pediam não era emprego, mas sim que eu ajudasse de alguma forma os seus filhos que estavam dominados pela droga.
ZÉ LEON: O mais grave é que o crack está tomando o lugar da maconha, e o crack destrói mesmo…
JOEL: Eu cheguei à conclusão que você, Noel, é o maior político de Resende. Foi quem dirigiu Resende por mais tempo (10 anos) e é o único que é filho e pai de prefeitos. Como é o teu sentimento com a cidade?
NOEL: Eu nunca tinha pensado nesses dados… Mas olha, eu costumo dizer que antes de ser brasileiro eu sou resendense. Não sei se tem problema eu falar isso assim diante de um gravador, mas antes de pensar no Brasil eu penso no estado do Rio, e antes do estado do Rio eu penso em Resende. A minha pátria é Resende. Depois o estado do Rio, depois o Brasil e depois o planeta.
GUSTAVO: Você tem vontade de ser prefeito de Resende outra vez?
NOEL: Vontade eu não tenho… A minha vontade é servir… Você não acredita, Gustavo, mas se você passar umas horas no meu gabinete você vai ficar impressionado… Por que é que eu recebi um título de cidadão macucoense, um título de cidadão de Levy Gasparian? Porque eu encontrei com um cidadão no elevador chorando por causa de um drama que o município dele está vivendo. E eu disse: “quem sabe eu posso ajudar?” Era o prefeito de Macuco, eu não sabia, ele tinha ido procurar o presidente da Assembléia. E eu resolvi. E agora recebi um título. E resolvi o problema porque isso faz bem para mim, faz bem para o meu coração melhorar a vida de alguém. Tem até um certo egoísmo nisso. O papai me ensinou, desde garoto, que para você ter uma responsabilidade pública você tem que ter a capacidade de sentir a dor do outro; não basta você ter a capacidade de compreender ou entender. Se eu passo na estrada e vejo um acidente eu paro para ajudar. Uma vez meu carro capotou três vezes, pegou fogo, eu consegui sair pela janela, com a boca cheia de vidro, e quando saí vi lá do outro lado uma menina caída no asfalto. Eu pulei o muro e fui lá cuidar da menina. Quer dizer, eu tenho essa vocação de cuidar primeiro do sofrimento de outra pessoa do que das minhas próprias aflições. E sem nenhum tipo de desejo de mercer gratidão, embora o reconhecimento muitas vezes emocione a gente — outro dia, por exemplo, encontrei uma senhora, uma costureira, que me pediu para me dar um beijo por eu ter trazido a UERJ para Resende, porque ela estava vindo da França e indo para a Argentina, visitando dois filhos que se formaram em Engenharia de Produção. Então, não é que eu “gostaria” de ser prefeito de Resende de novo… Mas se precisarem de mim, eu sou um cara tarefeiro.
GUSTAVO: Você gosta mais de ser executivo do que legislativo?
NOEL: Muito mais…
GUSTAVO: Na Assembléia, como na Câmara dos Vereadores, o pessoal também funciona mais como braço do executivo do que como legisladores?
NOEL: Também, é mais ou menos a mesma coisa. Agora, eu, graças a Deus, elaborei, por exemplo, a Lei de Recursos Hídricos do Estado do Rio de Janeiro, que é considerada uma das mais avançadas do mundo. Teve até um episódio interessante. Eu fiz esse projeto recentemente baseado na minha experiência lá do fim dos anos 70, quando visitei as bacias da Europa. Amigos que eu fiz, na Alemanha, na França, vieram para cá, se hospedaram na fazenda e trabalharam comigo na elaboração. Pois bem: quando o projeto vai para a Comissão de Meio-Ambiente o Minc desengaveta um projeto dele que tinha sido arquivado e apresenta um substitutivo, ao projeto dele, cujo texto era o meu… O Sérgio Cabral me chamou para falar: “olha Noel, é que o Minc, historicamente, é o cara que cuida do meio-ambiente…” Ora, eu brigo há tanto tempo pelo meio-ambiente…, já fui ameaçado de morte, já colocaram uma bomba na prefeitura, durante aquele show contra o enriquecimento de urânio aqui… O Minc acabou ficando como co-autor da lei… Fiz também a lei obrigando o Estado a dar cadeira para os cadeirantes, articulei a lei de cotas para negros, a lei estadual. O Brasil foi o maior importador de escravos da história do mundo. O segundo colocado foram os Estados Unidos com menos da metade… Sabe por que? Porque nós maltratávamos tanto os nossos escravos que eles não reproduziam e morriam muito cedo. E agora a gente não vai fazer nada para eles tirarem o atraso disso? É um absurdo! E a lei tem reservas também para os oriundos das escolas públicas, para incluir os brancos que também carregam o ônus da pobreza. Articulei diversos projetos de lei, inclusive uma facilitando a vida da classe de vocês, Joel, a dos corretores de imóveis.
GUSTAVO: Qual sua opinião sobre o projeto de lei do senador Cristóvam Buarque, que obriga qualquer homem público a colocar os filhos na escola pública? Aliás, ele poderia estender o projeto também para a área da saúde.
NOEL: Sou totalmente a favor.
ZÉ LEON: Noel, você fez também a lei que obriga o estado a fazer exame de tuberculose nos detentos.
NOEL: Essa lei eu me inspirei no meu pai. Quando ele era prefeito, pegava a ambulância da prefeitura, uma chevrolet 51, e eu ia com ele vistar a família dos tuberculosos de Resende. Ele levava um caixote de madeira, saquinhos de papel, arroz com feijão e levava também hidrazita, que ele pegava no sanatório de Itatiaia. Dava a hidrazita, mandava o sujeito levantar a língua para ver se ele tinha engolido mesmo… Hoje isso é chamado de tratamento monitorado. Por conta disso eu apresentei e consegui aprovar essa lei na Assembléia. Porque o Rio de Janeiro é o campeão de tuberculose no Brasil, e o maior foco é nos presídios. Então, eu disse que gosto mais do Executivo, mas no Legislativo eu consigo também coisas legais — o negócio dos cadeirantes, o da tuberculose, uma lei contra o assédio moral …
JOEL: O seu pai, Augusto de Carvalho, faria 100 anos agora no dia 11 de janeiro. Ele foi um homem extraordinário, inclusive pela coragem. Eu invoco a imagem dele sempre que preciso de coragem numa situação de brigar com um poderoso em defesa de um menos favorecido.
NOEL: Eu tive sorte de ter um pai assim. Eu herdei dele essa coisa de não ter medo. Já estive até em avião com risco de acidente e fiquei calmo, atendendo a quem estava nervoso. Parece que o meu pai está comigo… Eu fui preso com o meu pai na rádio, no dia do golpe militar. Fui solto no dia seguinte, mas meu pai continuou preso. O Garastazu Médici me disse assim: “meu filho, você vai pra casa, tranquiliza a sua família e diz que o teu pai vai continuar aqui preso mas sob a minha responsabilidade”. Tem até uma história curiosa: quando eu voltei pra fazenda quem estava aqui escondido era o Betinho, o irmão do Henfil. Ficou aqui escondido um tempão. Pois bem, tempos depois, eu era Secretário de Habitação e estava num teatro no Rio onde se estava homenageando o Betinho. Contei esse fato, e o Betinho pediu o microfone e disse assim: “Noel, eu vou te contar agora uma coisa que você não sabe: os militares foram várias vezes na fazenda prender o teu pai; prendiam, soltavam, prendiam de novo; e num desses dias tinha um oficial que ficou olhando muito pra mim, eu achei que ele estava me reconhecendo. O teu pai voltava sempre íntegro, sem hematomas, mas eu, com os tipos de ligação que eu tinha, se me levassem, eu não voltava mais. E o oficial me olhava fixamente. E eu pensava: o que é que eu faço?… Sabe o que eu fiz, Noel? Eu aplaudi a prisão do teu pai. Bati palmas e disse: muito bem, prendam esse subversivo. E aí o oficial me deu um sorriso, fez um sinal de positivo, pegaram o teu pai, foram embora e eu fiquei”.
GUSTAVO: E de morrer, Noel, você tem medo?
NOEL: Não. Não tenho. Especialmente se for para defender alguém, o interesse público, um neto meu, um filho meu… E se acharem o meu corpo — porque pode ser que não achem… — eu quero ser enterrado no cemitério de Eng. Passos, perto do meu pai.
GUSTAVO: Como é mesmo que o coveiro de lá falava quando você era garoto?
NOEL: O Antônio Ouvídio, meu amigo, perguntava a ele assim: “E aí, seu Venâncio, tem enterrado muita gente?” E o Venâncio, animado: “Esse mês morreu uma porçãozinha boa…” (todo mundo ri). Acho que ele ganhava por enterro…Vocês sabem que este Venâncio era irmão do Mano Elói, e que o Carlos Cachaça, o sambista da Mangueira, parceiro do Cartola, declarou que quem cantou o primeiro samba para ele foi o Mano Elói, que é aqui de Eng. Passos, e que ele cantou perto do cemitério daqui, que é no terreno da Fazenda Três Pinheiros?
GUSTAVO: O pessoal que diz que essa família Carvalho acha que fez tudo em Resende agora tem mais um dado: o samba também nasceu em Eng. Passos.
NOEL: Pois é… O Hiran Araujo, que é o mais respeitado historiador do samba, diz que o choro nasceu das bandas dos escravos, no Vale do Paraíba. Eu mostro a casa onde o Mano Elói nasceu…
ZÉ LEON: O morro do Salgueiro foi ocupado por negros que vieram do Vale do Paraíba.
GUSTAVO: E do envelhecimento, Noel, você tem medo?
NOEL: Também não, eu acho ótimo, gosto da idade que tenho, estou feliz da vida. Cada vez fico mais feliz com tudo o que me aconteceu. Toda noite eu me ajoelho, converso com Deus, converso com papai, converso com Ana Júlia, minha neta, converso com minha sogra, meu sogro, que foram muito legais comigo enquanto viveram.
GUSTAVO: Você sempre jogou volei, foi esportista. Hoje você faz ginástica para manter a saúde?
NOEL: Nunca na minha vida eu entrei numa academia de ginástica. Mas eu falo no telefone andando, subo as escadas da Assembléia de dois em dois degraus. Outro dia fui com um grupo numa reunião num oitavo andar. O elevador estava enguiçado e só eu cheguei pelas escadas; os outros, mais jovens, foram ficando pelo caminho. Dizem que não é bom deixar de almoçar, mas há 30 anos eu não almoço, só como à noite, e estou bem. Mas bebo muita água e tomo cafezinho com leite em pó, tomo uns 10 por dia.
ZÉ LEON: Mas você colocou um stent.
NOEL: Coloquei um stent, mas o cara disse que era uma veia de quinta importância. Se eu quisesse botava, e aí botei. Semana passada subi oito andares, correndo. Não tenho nem unha encravada… Nunca senti dor de cabeça…
ZÉ LEON: Quando o Noel estava na Prefeitura ele perguntava: cadê fulano? Foi almoçar. Cadê Sicrano? Foi almoçar. E ele: porra, esse negócio de almoçar é que mata…(risos)
NOEL: Claro, tem gente esperando pra resolver problemas graves…
Entrevistas
Jornal Ponte Velha











Parabéns ao Gustavo, Joel e Zé Leon, do jornal Ponte Velha pela entrevista com o deputado Noel de Carvalho. Aqui, de Barra do Piraí, mando o meu abraço a todos e em especial ao grande amigo Noel.
gostaria imensamente de entrar em contato com o sr.noel de carvalho. Sou uma resendense de 54 anos ,conheço o deputado há muitos anos e preciso falar com ele urgente.
Olá Sra Regina. Envio o e-mail em que a senhora poderá contactar o deputado Noel de Carvalho.
Este e-mail é aberto diariamente pela Sra. Denise, da assessoria de imprensa do deputado:
ascomnoeldecarvalho@gmail.com
Sem mais para o momento,
Britto